PERDIDO NA SELVA
Sim, recordações! Algumas são tão
marcadas que chegam a ser dolorosas só de as recordar. É o caso de um episódio
passado com o meu filho mais novo,
João Filipe, tinha ele então oito anos. Era a nossa caçada familiar, anual. Um mês
acampados no mato num ambiente paradisíaco que retemperava as nossas forças para fazer
frente a todas as vicissitudes da vida. Desfrutávamos momentos de grande ventura, gozando
a eterna liberdade e generosidade da selva.
Revejo-me nesses tempos inesquecíveis ensinando os meus filhos a caçar e a compreender
as coisas e os segredos do mato, como os leões ensinam os leõezinhos...
Mas a selva africana é magnânima em tudo, até no preço que cobra quando nos esquecemos
ou descuramos pequenas coisas que ela sabe transformar em grandes reveses, daqueles que
deixam as tais marcas. 
Caçávamos na região do Mpuzi entre o rio Limpopo e a linha do caminho-de-ferro que
ligava Lourenço Marques ao Zimbabwé, numa extensão de cerca de quinhentos quilómetros.
A região é semidesértica e muito rica em caça grossa, como elefantes, búfalos,
leões, leopardos e toda a espécie de pequenos e grandes antílopes de que o Sul de
Moçambique é tão fértil.