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OS GRANDES MÁRTIRES
Os antílopes são realmente os grandes mártires da fauna colonial.
Dir-se-ia que vieram ao mundo para se sacrificarem aos apetites dos carnívoros
selvagens - e desse outro carnívoro, mais terrível e insaciável que os
bichos bravios: o Homem.
São eles o pasto dos carnívoros - e são eles também os animais sobre
os quais a perseguição do homem faz mais vítimas.
E talvez, porque esse é o seu destino e a Natureza organizou
maravilhosamente as coisas, vieram ao mundo em quantidades assombrosas,
que em muito excedem as quantidades de quaisquer outros mamíferos. São,
por excelência, os bichos das grandes multidões, das sociedades incontáveis,
da sociabilidade - em comum com outros herbívoros, é certo, mas
constituindo, entre estes, grupo à parte, muito definido, não só pela
maior fragilidade dos indivíduos, mas também por certos caracteres da
sua vida gregária.
São, na verdade, os grandes mártires.
Naturalmente, as espécies foram organizadas para resistirem ao martirológio,
pelo número. A natureza fê-los muitos e variados, não só para
assegurar a vida dos carnívoros, como também para assegurar a vida das
espécies. E, assim, morreriam muitos indivíduos, em holocausto aos
direitos de outros mais fortes - mas as espécies perdurariam, eternamente
robustecidas pela Natureza.
Simplesmente, o homem, evadindo-se pouco a pouco das leis naturais e
submetendo-se a leis próprias por ele criadas, com a insensatez das espécies
suicidas, desorganizou os desígnios superiores da Natureza, destruindo o
equilíbrio da sua organização. Realmente ele, só por si, tem infamado
o martirológio natural de antílopes, sabiamente concebidos pela
Natureza, com processos de extermínio que, levando os indivíduos,
condenam também as espécies.
As grandes manadas naturais, impiedosamente perseguidas pelo Homem, para
fins que excedem os estabelecidos pela Natureza, vão minguando por todo o
mundo. Desapareceram de alguns continentes, como a Europa e a América, e
apenas se mantêm ainda, embora já desfalcadas em número e organização,
nas regiões, felizmente ainda pouco acessíveis, da África, Ásia e Oceânia
(Nota do Web Master: este livro foi escrito em 1934,
a realidade actual é, infelizmente, bem diversa!).
O Homem, só por si, pôde o que não puderam todos os carnívoros do
mundo, matando a fome todos os dias: reduzir, por vezes até à extinção,
grandes agrupamentos de herbívoros.
Perseguidos pelos carnívoros, naturalmente; perseguidos pelo Homem, cruel
e estupidamente - os antílopes foram, e são ainda, as espécies mais
molestadas por grandes epidemias.
Mas durante a sua passagem pela vida, certos de cumprirem missão e
destino fatais - são também os mais típicos e representativos elementos
de beleza animal, na decoração incomparável dos grandes espaços
selvagens da Natureza.
As aves são, nestas terras bravias e de estranhos encantos, como flores
do espaço e dos ramos, flores vivas e animadas, cujas notas de cor, ora
recortadas, a fugir, no azul do céu, ora adormecidas, nas sombras quietas
das matas, parecem realmente corolas originais. Mas os antílopes são os
elementos da forma e da graça - as maravilhas esculturais deste museu
vivo de arte natural. |