| CONTINUAÇÃO |
E assim aguardaram, dormitando.
E foi então que o Leopardo ouviu algo a respirar ao luar que se
escoava por entre as sombras densas da Floresta, e era algo que cheirava
a Zebra, e sabia a Zebra, e ao derrubá-la deu coices como a Zebra,
mas não conseguia vê-la. Já assustado gritou-lhe: -Está
quieta, ó tu que não tens forma. Vou sentar-me em cima de
ti até amanhecer, e depois tentarei perceber o que agora não
entendo. 
E logo em seguida ouviu um estrondo e um grunhido,
e o Etíope gritou: -Apanhei uma
coisa que não vejo. Cheira a Girafa, sabe a Girafa, dá coices
como a Girafa, mas não tem forma.
-Não te fies nisso! disse o
Leopardo. Senta-te em cima até amanhecer.
E cada um se sentou firmemente em cima da
sua caça.
Ao nascer do Sol, perguntou o Leopardo: -O
que é que caçaste, irmão?
O Etíope coçou a cabeça
e disse: -Devia ser um animal com o pêlo
fulvo, e devia ser uma Girafa; mas é um animal coberto de manchas
castanhas. E tu, irmão, que é que caçaste?
O Leopardo também coçou a cabeça
e disse: -Devia ser um animal com o pêlo
acizentado, e devia ser Zebra; mas é um animal com listas pretas
e roxas. Ó Zebra, que é que fizeste para ficares assim? Se
estivéssemos na Savana, conseguiria ver-te a quilómetros
de distância.
-Pois é, respondeu a Zebra,
mas não vês que estamos na
Floresta? Liberta-nos que nós mostramos-te. 
Libertaram a Zebra e a Girafa; e a Zebra afastou-se
em direcção a um arbusto por onde passava a luz do Sol em
forma de listas, e a Girafa dirigiu-se para umas árvores altas onde
as sombras formavam zonas pintalgadas.
-Olhem agora,
disseram a Zebra e a Girafa. Onde está
a vossa comidinha? O
Leopardo olhava, o Etíope arregalava os olhos, mas a única
coisa que conseguiam ver eram sombras listadas e sombras pintalgadas, e
nem sinal da Zebra ou da Girafa.
-Hi! Hi!
exclamou o Etíope. Vale a pena aprender
este truque. Devias aprender também, Leopardo, pois sobressais nesta
escuridão como leite de cabra derramado em chão queimado.
-Ho! Ho! respondeu o Leopardo. Ficarias
admirado se eu te dissesse que nesta escuridão és tão
visível como pó talco em cima de um carvão?
-Bom, chamarmos nomes um ao outro não
vai ajudar-nos a apanhar o jantar, disse
o Etíope. O problema é que
a nossa côr não combina com a Floresta. Eu vou seguir o conselho
de Baviaan. Ele disse-me que devia mudar, e como a única coisa que
posso mudar é a côr da pele, é isso que vou fazer.
Vou mudar para um preto-acastanhado, com um pouco de roxo e uns toques
de azul; será a côr ideal para me esconder em buracos e por
entre as árvores. 
E assim foi. O Etíope pôs-se
ao Sol e mudou a côr da pele, o que deixou o Leopardo excitadíssimo.
-E eu?
perguntou ao Etíope.
-Segue o conselho de Baviaan; ele disse
que fosses para um lugar onde se está e não está.
-E foi o que eu fiz. Vim para aqui o mais rápido que pude, estou
contigo e de nada adiantou! lamentou-se
o Leopardo.
-Não sejas tonto,
disse o Etíope, Baviaan não
se referia às sombras, referia-se à côr do teu pêlo.
-E como é que consigo isso? perguntou
o Leopardo.
-Pensa na Girafa, disse
o Etíope. Ou se preferires listas
pensa na Zebra. Estão ambas satisfeitíssimas com o pêlo
que têem.
-Umm! fez
o Leopardo. Eu não queria ser igual
à Zebra por nada deste mundo.
-Bem, decide-te, porque iria detestar ter de caçar sozinho; mas
se insistires em manter a côr do pêlo que tens, é o
que terei de fazer.
-Sendo assim, escolho pintas; disse o
Leopardo. Mas não me faças
pintas demasiado grandes, não gostaria de me parecer com a Girafa.
-Faço-as com a ponta dos dedos, a minha pele ainda tem muita
tinta preta. Põe-te em pé.
O Etíope juntou os cinco dedos
e apertou-os contra o corpo do Leopardo. E por onde passavam, os dedos
deixavam cinco pequenas marcas pretas, todas juntinhas.
Se
quiserem poderão vê-las no pêlo de qualquer Leopardo.
Por vezes os dedos escorregavam e as pintas ficavam tremidas; mas se olharem
de perto e com muita atenção, verão sempre grupos
de cinco pintas, feitas por pontas de cinco dedos.
-Agora estás uma beleza!
exclamou o Etíope. Podes
deitar-te no chão e pareceres-te com um montinho de pedras; podes
deitar-te sobre uma rocha e ficares invisível;
podes
balançar-te num ramo cheio de folhas e pareceres-te com ele; e podes,
ainda, deitar-te no meio de um caminho e passares despercebido. Pensa nisso
e ronrona!
-Mas se eu posso ser tudo isso, porque é que tu, ó Etíope,
não te pintalgaste também?
-Oh, só porque gosto mais do preto,
respondeu-lhe o Etíope. Agora anda
daí e vamos ver se conseguimos caçar algo para comer!
E lá foram eles, e caçaram,
e viveram felizes para sempre. E é tudo.
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Ah, de vez em quando
hão-de ouvir os mais velhos dizer:
-Poderá o Etíope mudar de
côr ou o Leopardo as suas pintas? Penso
que se o Leopardo e o Etíope não o tivessem já feito,
nem tal pergunta existiria. Mas também acho que nunca mais o voltarão
a fazer, porque estão muito contentes com as cores que têem...!
(Tradução
livre do conto de Rudyard Kipling “How The Leopard Got His Spots” feita
por Benjamim José M. Ferrinho Morbey Ferro)
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(Se eu tivesse que nascer um ANIMAL, gostaria sem qualquer dúvida de ser LEOPARDO. Por vezes sonho que o sou, e que passeio pela Selva, tranquilamente, no meio das árvores, a brincar com os outros animais. Por isso pedi ao meu avô para pôr esta história no meu Sótão.)
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