(continuação)

Mestre Lobo, remirando as suas escuras patas, compreendeu ser inútil insistir. E retirou-se todo triste. Mas durante o caminho pensou:
- Tenho de descobrir uma maneira de entrar. Ora vejamos... que hei-de fazer? ...Ah! Eis a solução: vou visitar o mestre padeiro e untar as minhas patas com a massa do pão, de bela farinha branca. As patas ficarão claras e, sem receio, já poderei mostrá-las aos cabritinhos.
E o padeiro, que apanhou um grande susto ao vê-lo, untou-lhe a pata como ele pediu.
Chegado à soleira da porta dos cabritinhos voltou a bater.
Truz... Truz... Truz!

- Abri, meus cabritinhos queridos. É a vossa mãesinha que acaba de voltar da vila. Abri depressa, abri!
- Decerto vamos abrir... Mas queremos primeiro a tua patinha ver.
E o lobo tratou logo de passar a sua pata pelo postigo. Os cabritinhos, julgando ser de facto a sua mãe que chegava, abriram o ferrolho.
O lobo empertigou-se todo e cresceu-lhe água na boca ao avistar os cabritinhos. Estes, ao verem uma grande língua vermelha sair do focinho do lobo, logo começaram a balir, atropelando-se uns aos outros, pernas para que vos quero, na ânsia de se salvarem. Procuraram esconder-se debaixo das camas, armários, mesas e outros móveis. Mas o malvado lobo encontrou-os e, duma assentada, devorou-os de uma só vez, à excepção do mais novinho que se tinha escondido na caixa de madeira do relógio alto.
Depois disto, mestre Lobo tratou de dormir uma sesta sob a macieira grande.
O cabritinho mais novo tremia de medo, enquanto aguardava o regresso de sua mãe. Logo que mãe Cabra entrou finalmente em casa, este, lavado em lágrimas, contou o que tinha acontecido aos irmãos. Ao ouvir o triste relato da desgraça que acontecera, a comadre Cabra ia-se desfazendo em pranto de aflição e desespero: era necessário salvar o mais depressa possível os seus queridos cabritinhos. Pegou na grande tesoura de poda do jardineiro e aproximou-se resolutamente de mestre Lobo que ressonava a plenos pulmões, à sombra duma grande macieira. Dum golpe rápido rasgou o ventre do lobo, donde saíram saltitando, um a um, os seus pobres cabritinhos. Ainda estavam muito assustados mas, como o lobo os tinha engolido sem mastigar, só tinham sofrido um susto. O mais depressa que puderam ajudaram a mãe Cabra a encher de grandes pedras o ventre enorme do lobo, e depois trataram de correr para casa.
Logo que mestre Lobo acordou, sentiu-se pesado e com uma sede horrível. Lá se arrastou até ao poço do jardim para beber mais à vontade. Aproximou-se da borda e debruçou-se para meter a língua nessa água fresquinha. Mas eis que, no ventre, o peso das pedras lhe fez perder o equilíbrio
e zás... caiu no poço. Arrastado para o fundo, logo morreu afogado, vítima da sua gulosice.
A comadre cabra e os seus cabritinhos começaram a dançar em redor do poço. Os vizinhos vieram felicitá-los e toda a gente estava muito satisfeita por se verem livres do lobo feroz.

(Contos infantis de Grim)

( A foto maior do lobo é Copyright Alain Guillou, que pode ser acedido em http://www.guillou.com/moreimag.htm)

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