O LOBO, A CABRA E OS SETE CABRITOS
Numa bela manhã, a comadre Cabra tinha-se
enfeitado com os seus mais ricos adereços: uma saia vermelha com pintinhas brancas, uma
blusa azul também salpicada de branco e um avental muito asseado.
Pegou no cesto das compras e, virando-se para os 7 cabritinhos, recomendou:
- Escutem bem a vossa mãe. Hoje é o dia da feira na vila. Para que
possamos saborear um bom chocolate e belas tortas de fruta, preciso de dar uma saltada à
Mercearia Faz-Tudo e comprar géneros apropriados. Também aproveitarei para fazer uma
visita à tia Chiba e, por isso, é possível que só possa regressar muito tarde a casa.
Portanto escutem com atenção! Abram-me bem os olhos e arrebitem as vossas orelhas
enquanto estiver ausente. Ouçam agora: Mestre Lobo devora os cabritos que não andem com
muita cautela e, por muito que coma e devore, nunca tem a goela satisfeita! Receio bem que
tente chamar-vos lá para fora, para cravar os dentes afiados em vocês. Também não
abram a porta a ninguém, mal eu tenha saído de casa. A ninguém, ouviram bem?
- Sim, mamã!, disseram os sete cabritinhos ao mesmo tempo. Então um deles, mais atinado, perguntou:
- Mas quando regressar como é que poderemos ter a certeza de que
é, de facto, a mãesinha?
A mãe Cabra sossegou-os: - Quando
regressar da vila, passarei a minha pata branca pela fresta do postigo da porta e assim
podereis certificar-vos de que sou eu.
E a comadre Cabra lá foi às suas compras.
Mestre Lobo, que passava nas proximidades, notou a saída da comadre Cabra, e pensou:
- Desta vez, meus cabritinhos, é que não me escapais.
Com medo de assustar os cabritinhos se lhes uivasse na sua voz
forte, pensou na melhor forma de os iludir. Porque não tomar umas colheres de açúcar,
como fazem os cantores quando estão roucos? Resolveu então ir pedir um conselho à
Mercearia Faz-Tudo. É claro que o merceeiro, ao ver um lobo tão corpulento, ficou
aterrado e boquiaberto, enquanto o marçano tratou logo de se esconder atrás do balcão.
Mestre Lobo pediu polidamente se lhe podiam vender uns ovos para uma gemada. Para se ver
livre de cliente tão perigoso, o merceeiro ofereceu-lhe meia dúzia de ovos e um pouco de
açúcar. O lobo devorou a gemada de um trago e tratou de regressar.
Mal chegou junto da casa dos cabritinhos, escondeu-se atrás dos arbustos, aproximou-se
cautelosamente da porta e, com a sua grande pata, bateu três vezes: Truz... Truz... Truz!
Dissimulando a sua voz forte, suavizada pela gemada, latiu:
- Cabritinhos, abri a porta à vossa mãesinha, que já voltou da
vila. Depressa, pois o meu cesto está cheio de pastéis de massa folhada, bolos e doces
de creme. Está tão pesado, que até me custa a aguentar com ele às costas. Então...
abri!
Os cabritos ficaram admirados por a mãe já estar de volta, quando
os tinha avisado de que se demorava, e levaram certo tempo a responder. Então, mestre
Lobo voltou a repetir, impaciente, com mais rudeza:
- Então, abram depressa! Abram
a porta... mas abram!
Ouvindo esta voz que eles não conheciam, o mais ajuizado dos
cabritos sempre arriscou finalmente:
- Decerto, vamos abrir... Mas, para o poder fazer, queremos,
primeiramente, a tua patinha ver.