(continuação)
Conversaram ambos toda a
noite e, quando estava para amanhecer, o cão foi levar a princesa ao castelo.
No dia imediato esta, ao tomar chá com o rei
e a rainha, contou-lhe que tivera um sonho muito bonito, no qual entraram um cão de olhos
de regueifa e um soldado, que havia conversado bastante consigo. O rei ficou com a pedra
no sapato e, por isso, ordenou furioso à aia que a vigiasse. Chegou a noite e o cão
voltou a buscar a princesa, mas a aia deitou a correr atrás dele, só parando quando este
entrou na estalagem. Então a aia fez com um pedaço de giz uma cruz na porta, dizendo
consigo:
- Desta forma, amanhã, sua majestade saberá onde mora o
soldado.
Mas o cão, ao sair da estalagem, viu a cruz e, indo a todas
as portas da cidade, traçou outras iguais, com o que, no dia seguinte, o rei ficou às
aranhas.
- Não te aflijas, marido! -
sossegou-o a rainha - pois eu prendo ao vestido da pequena
uma saquita com trigo e faço-lhe um buraquinho. E, desta maneira, se tornarem a levá-la,
os grãos de trigo irão caindo pelo caminho e ficaremos a saber onde é a casa do
mariola.
De
novo à noite o soldado feriu duas vezes lume no isqueiro. Mas, surgindo
o cão de olhos de regueifa, o mesmo informou-o, pesaroso:
- Eu não corro tanto como o meu irmão dos olhos de rodas de
carro, e a aia segue-me.
Ele que faça pois o serviço, para o que basta o patrãozinho chamá-lo
ferindo três vezes lume no isqueiro.
O soldado utilizou o dito cão. Apesar disso, os grãos de
trigo denunciaram-lhe a morada e ele foi preso e condenado à morte pelo rei. Quando o
carrasco se preparava para lhe cortar a cabeça, o sabidola pediu, contudo, que lhe fosse
permitido, como última vontade, tirar duas fumaças do seu cachimbo. O rei não pôde
recusar-lho. E ele, ferindo lume no isqueiro, fez com que aparecessem os seus três cães,
que logo começaram a rosnar e a mostrar os dentes à assistência,
que tremia como varas verdes.
- Ó rei, perdoa-me e deixa-me casar com a princesa, senão
dou ordem aos cães que te comam, assim como aos cortesãos.
O rei não teve outro remédio senão aceder.
E o soldado casou com a princesa e foram ambos muito felizes.

(Conto de Andersen)
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