(Continuação)
Ora acontecia que neste
havia um homem que, tendo enviuvado, casara de novo. E esse homem
era pai de duas meninas, provenientes de cada um dos seus
casamentos. A do primeiro era muito bonita, trabalhadora e
boazinha. Mas, apesar disso, a madastra dáva-lhe maus tratos, ao
passo que cumulava a filha, que era feia, desmazelada e invejosa,
de paparicos e festas. Assim, enquanto esta ficava de manhã na
cama, a outra levava a vaca a pastar, quer chovesse ou nevasse.
Certa ocasião, desempenhando ela esta tarefa, surgiu-lhe uma
velha -a mesma do rei- que lhe disse:
-Sou a tua
madrinha e, porque mereces, quero acabar com a triste vida que
levas. Assim, caso sigas os meus conselhos, em breve viverás num
palácio e usarás uma coroa de princesa.
Falando deste
modo, a velha entregou-lhe um vestido constelado de pedrarias, e
tão fino que dir-se-ia mais feito de raios de sol do que de
tecido, e acrescentou:
-Guarda o vestido
e só o uses no dia da tua boda. Até lá continua a ser boa
menina e nada receies.
Com isto
sumiu-se a fada e, mal a menina escondera o vestido por baixo da
roupa, apareceram os soldados do rei. Ao avistá-los, ela sujou a
cara com lama, na esperança que, vendo-a tão feia, a não
levassem. Mas os soldados pouco se importaram com isso e não
tardou que a menina se encontrasse com as outras, também
roubadas, fechada numa sala do palácio do rei. Chegou o momento
de o dragão comer e os soldados escolheram a menina, visto
parecer-lhes a mais feia de todas.
E disseram-lhe rindo:
-Não te aflijas,
pois levamos-te ao Príncipe, para que ele case contigo.
A menina tirou
então o vestido que trazia escondido e vestiu-o. E logo ficou
tão linda que os soldados, julgando ver um anjo, caíram de
joelhos. Depois, sem que fosse preciso guiá-la, entrou na sala
onde se encontrava o dragão. E, muito embora este a fitasse com
os seus grandes olhos raiados de sangue e escancarasse a goela,
falou-lhe serenamente:
-Não tens
vergonha, tu que és filho de um rei, de comeres pobres meninas?
Se porventura tens uma alma humana, ordeno-te, pois, que te
apresentes tal e qual és.
Palavras não
eram ditas, o dragão transformou-se num bonito Príncipe de
cabelos loiros e olhos azuis. E, nesse instante, surgiu também a
fada, que tomando pela mão os dois jovens, os conduziu à
presença do rei, a quem disse, perante a sua alegria: 
-Como recompensa
da tua dedicação de pai, aqui tens, são e escorreito, o teu
filho e a sua noiva, que o libertou do encantamento. Casa-os e
manda escrever a sua história, para que de futuro todos saibam
que, mesmo debaixo da pele de uma serpente, se pode esconder uma
boa alma.
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O rei assim fez e o Príncipe e a menina foram muito felizes.
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(Quem vê caras não vê corações)
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