A MENINA E O DRAGÃO

Era uma vez um rei, que vivia muito desgostoso por não ter filhos.
Ora, certo dia, andando à caça na floresta vizinha do palácio, achou-se de súbito diante de uma serpente que se aquecia ao sol,
rodeada pelos seus filhotes. As pequenas serpentes brincavam com a mãe e esta correspondia-lhes, lambendo-as ternamente. Perante o espectáculo, o rei, mais do que nunca, sentiu o desgosto que o devorava. E exclamou:
-Até uma serpente quer bem aos filhos! Só eu é que tenho o coração cheio de amor, mas por um filho que não existe! Se ao menos tivesse uma serpente para acarinhar...!
Esqueceu-se depressa o rei de quanto vira e dissera. Meses após, a rainha sua esposa dava-lhe então o filho tão desejado. E, quando o viu, o rei lembrou-se do que sucedera, pois aquele não era o principezinho de caracóis e olhos azuis que imaginara, mas uma serpente -uma serpente que, crescendo todos os dias de uma forma extraordinária, indicava que em breve se tornaria num dragão.
-Senhor -disseram-lhe por isso os cortesãos -mandai matar o bicho porque, em deixando de beber leite, precisará, como todos os dragões, de se alimentar com a carne das meninas do vosso reino.
-Não posso fazê-lo, pois é meu filho. Tenho que me resignar com o destino e cuidar dele, como requer a minha condição de pai, respondeu-lhes o rei.
A serpente acabou assim por tornar-se num dragão gigantesco, que dia e noite silvava, mostrando os dentes compridos e aguçados como punhais. Cheios de terror, os cortesãos procuraram o rei e informaram-no de que a causa do silvo do monstro era a fome e que chegara o momento de alimentá-lo com a carne das meninas, sob pena de, cheio de raiva, ele destruir o palácio. O rei, que era justo e bondoso, ficou amargurado, mas desejando experimentá-los disse-lhes:
-Pois bem, começaremos por dar-lhe as vossas próprias filhas. E a primeira a ser-lhe entregue será a do que falou primeiro.
Os cortesãos ficaram atrapalhados e aflitos, mas, após cochicharem alguns instantes, perguntaram-lhe:
-Vossa Majestade porventura já pensou que, depois de comer as nossas filhas, o dragão comerá as do povo? E que, com isso, o povo se revoltará e poderá destronar-vos? Se permitis um conselho, sugerimos que os vossos soldados roubem antes as meninas do país vizinho.
Foi deitar-se o rei, não tardando a aparecer-lhe em sonhos uma velha que, apesar da idade, era muito bela e simpática. E a velha disse-lhe:
-Segue o conselho dos teus cortesãos, pois nenhum mal sucederá às pequenas. Todas elas serão restituídas à família, sem que lhes falte um só cabelo, com excepção de uma, pela qual velarei.
No dia imediato o rei ordenou aos seus soldados que fossem ao país vizinho roubar meninas.

(Continuar)