(versão integral)

 

O MISTÉRIO DA MESA DE CAMILHA

A Leonel Neves
e aos seus Sete Contos de Espantar

O Dr. João Antunes não era o que se podia considerar uma pessoa com a cabeça bem assente no pedestal do seu pescoço. Deixar as chaves de casa na fechadura, estrear chapéus de chuva novos em folha por força do sumiço dos anteriores ou deixar as portas do carro abertas a barrar o caminho aos peões, eram coisas que já se esperavam dele. Assim o pensava a Sra. Margarida, a sua esposa que ia, sempre que podia, verificar todos os gestos do marido e questioná-lo sobre os inúmeros pequenos actos que fazem o quotidiano de um homem ocupado.
Certo dia de manhã, o Dr. Antunes saiu atrasado e apressado, como sempre, directo ao elevador. Enfiou-se no veículo sem reparar que a porta do apartamento de luxo, onde vivia, tinha ficado entreaberta. Os miúdos e a esposa já tinham saído. Por isso, calhara hoje ao Dr. Antunes a perigosa tarefa de se despedir do apartamento.
Quando chegou, ao átrio do prédio, nem reparou na azáfama que aí se processava. O inspector Roberto Leal dirigiu-se-lhe com um mais que cordial "Bom-dia" e mostrou-lhe um retrato:
- Não viu este indivíduo quando desceu?
- Não - respondeu monocordicamente o Dr. João.
Claro que não tinha visto ninguém dentro do elevador. O seu olhar já estava na rua preso ao automóvel impaciente que o esperava, junto ao passeio, pronto a arrancar.
O Ricardo foi o primeiro a chegar a casa, nesse dia. Tivera aulas só de manhã, porque o professor de Educação Física tinha ido a uma acção de formação e deixara-lhe a tarde livre. Baldou-se ao almoço do refeitório e foi para casa improvisar qualquer coisa, ansioso por se ligar à Internet e entrar no seu canal de “chat” preferido. A mãe já há muito que lhe confiara as chaves do apartamento, tanto mais que frequentemente era ele que ia buscar a irmã ao jardim de infância próximo da sua própria escola. Já tinha treze anos e todos o consideravam um miúdo muito responsável.
Assim que se aproximou do prédio, estranhou os dois polícias postados estrategicamente, um à porta e o outro na esquina, de telemóvel em punho. O vidro da montra da ourivesaria, que ficava nas arcadas do seu prédio, estava estilhaçado. Nem vivalma havia por ali àquela hora, à excepção dos dois polícias que o Ricardo, intimidado, não tentou interrogar.
Só mais tarde, quando a mãe regressou é que a curiosidade do Ricardo foi, de algum modo, satisfeita:
- Sabes que assaltaram a ourivesaria? - perguntou a mãe, esclarecendo-o - Parece que o polícia do Banco, quase surpreendeu o bandido já em fuga, com o ouro nos bolsos ou num saco, mas não conseguiu apanhá-lo. Aconteceu depois de termos saído. Um assalto em pleno dia, meu Deus!
Estavam na sala a remoer o jantar frente à televisão, quando a Sra Margarida se pôs a observar a sala que tinha mobilado, a custo, enfrentando sempre a relativa indiferença do marido, cujo olhar parecia cego para tudo o que não estivesse em papel ou no pequeno ecrã.
- Parece que a mesa de camilha está um pouco fora do lugar.
O marido, sem se dignar olhar, comentou:
- Nem sei como manténs essa mesa e a velha braseira, com o mobiliário moderno e caro que tens para aqui.
- É uma peça de estimação. Alguém a desviou do lugar. Se não sou eu a arrumar as coisas, é o caos!
- Pai - lembrou-se o Ricardo - quando sai de manhã, tem de se lembrar de dar duas voltas à chave. Hoje, quando cheguei, encontrei a porta fechada só no trinco.
- Realmente, não me lembro de ter posto a chave na fechadura... Bem, posso me ter esquecido de dar as duas voltas, mas encontraste-a fechada, que é o que interessa!
Ricardo resolveu não insistir com as distracções do pai. “Já basta ele ser assim, quanto mais estarmos sempre a falar disso”, pensou.
A meio da noite, ouviu-se a Aninhas a gritar:
- Pai! Pai!
O pai encontrou-a na sala, aterrorizada, congelada, de pés plantados no chão.
- Então? O que foi?
- A mesa está a andar pela sala!
- A mesa a andar? - foi um sonho teu, com certeza. O pai fica um bocadinho contigo.
Levou-a para o quarto e deitou-a.
No dia seguinte era sábado. Finalmente, um pequeno almoço todos juntos, depois de uma semana de horários inconciliáveis! Era a mãe que preparava tudo, enquanto eles esperavam. O Ricardo brincava com a irmã:
- Mesas a andar! Mesas a andar! Ahhg... - gritou, arreganhando os dentes e fazendo garras das mãos. - Eu sou o monstro!
A pequena tremeu de susto, mas sorriu e protestou:
- Está quieto!
- Ricardo, bebeste um litro de leite sozinho, três pães, e metade do presunto? - perguntou a mãe.
- Eu? Não!
- Então fui eu, para manter a linha - disse a mãe, irónica.
O Ricardo achou que começavam a acontecer demasiadas coisas estranhas para uma noite só! Numa urgente ida à casa de banho, o seu olhar deteve-se para um reflexo de cobre debaixo do sofá. Era a velha braseira que habitualmente se encontrava por baixo da mesa de camilha! Ia a pegar na braseira para a pôr no lugar, quando de repente lhe ocorreu uma hipótese delirante: "O ladrão! O ladrão!"
Voltou para a cozinha e sentou-se calmamente. Começou a falar num tom de voz mais baixo.
- Aninhas, tens a certeza que viste mesmo a mesa a andar?
- Sim, eu vi, mas era um sonho, respondeu a pequena, confusa.
- Mas não estavas na sala?
- Mas, veio o pai, eu acordei no quarto e, afinal, era um sonho.
Ricardo dirigiu-se então ao pai.
- Diga-me lá, tem a certeza que fechou a porta?
- Claro que fechei. São coisas que se fazem automaticamente, por isso é que não me lembro – assegurou o pai.
- Pelo sim, pelo não - avisou-os, agora muito baixinho, fiquem aqui na cozinha, que eu vou lá abaixo chamar o polícia.
O pai fez cara de ponto de interrogação:
- As ideias que tu tens… Se calhar estás a pensar no ladrão! Está bem, vai lá, pelo sim, pelo não...
O Ricardo desceu apressadamente as escadas e foi chamar o polícia de serviço, à porta do prédio que pacientemente subiu com ele. Explicou-lhe as suas suspeitas.
Ao entrar, Ricardo apontou para a mesa e disse baixinho “é aquela”. O polícia advertiu à entrada da cozinha:
- Fiquem aí! Se for o que o menino pensa, seria um caso sério, se ele agarrasse um de vós. O Ricardo espreitou e ainda viu o polícia pôr-se atrás do sofá e gritar para a mesa de camilha no centro:
- Salte cá para fora com as mãos para cima!
A camilha mexeu-se e apareceu um homem pequeno – um metro e sessenta e cinco -, magro, com um ar esbugalhado. O polícia revistou-o e de dentro dos bolsos desencantou muitos anéis, brincos e alfinetes, de prata e de ouro, ricos em pedras preciosas.
O polícia explicou:
- Sabíamos que ele estava por aqui, pois vimo-lo a entrar no prédio, mas não a sair.
E o Ricardo, o herói do dia, concluiu:
- Um assalto aqui em baixo, um ladrão em fuga, uma porta aberta ou mal fechada, uma mesa que anda, comida que desaparece, só podia ser o ladrão que aproveitou a distracção do pai para se instalar. Encontrou a porta aberta, com certeza, - aqui olhou para o pai que fez cara de caso, com um ar tão culpado que até dava pena. Instalou-se na sala por debaixo da mesa de camilha, à espera que os polícias se esquecessem dele. À noite dava-lhe a fome e ia à cozinha comer, a coberto da mesa. Por isso, a mãe tinha reparado na mesa fora do lugar, eu na braseira e a Aninhas, na mesa em movimento.
Todos bateram palmas para o Ricardo, excepto o ladrão, que estava com uma cara tão assustada que até a Aninhas ficou com  pena dele.

Luís Filipe Redes


Colori, colorado, está o conto acabado!


Com um beijinho muito grande de agradecimento ao meu amiguinho Luis,
Inês Gil

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