(versão integral)


PERDIDO NA SELVA

Sim, recordações! Algumas são tão marcadas que chegam a ser dolorosas só de as recordar. É o caso de um episódio passado com o meu filho mais novo, João Filipe, tinha ele então oito anos. Era a nossa caçada familiar, anual. Um mês acampados no mato num ambiente paradisíaco que retemperava as nossas forças para fazer frente a todas as vicissitudes da vida. Desfrutávamos momentos de grande ventura, gozando a eterna liberdade e generosidade da selva.
Revejo-me nesses tempos inesquecíveis ensinando os meus filhos a caçar e a compreender as coisas e os segredos do mato, como os leões ensinam os leõezinhos...
Mas a selva africana é magnânima em tudo, até no preço que cobra quando nos esquecemos ou descuramos pequenas coisas que ela sabe transformar em grandes reveses, daqueles que deixam as tais marcas.
Caçávamos na região do Mpuzi entre o rio Limpopo e a linha do caminho-de-ferro que ligava Lourenço Marques ao Zimbabwé, numa extensão de cerca de quinhentos quilómetros. A região é semidesértica e muito rica em caça grossa, como elefantes, búfalos, leões, leopardos e toda a espécie de pequenos e grandes antílopes de que o Sul de Moçambique é tão fértil.
Acampámos uns cinco quilómetros acima do rio e a uns doze do caminho-de-ferro, que segue quase paralelo a esse rio. Escolhemos um local frondoso e lindo, perto de uma das únicas lagoas que, naquela época, ainda tinham água e onde a caça bebia e nós nos abastecíamos. 0 espaço que nos separava do rio era pedregoso e acidentado e de difícil acesso, para que pudéssemos abastecermo-nos da sua água.
A caçada corria bem e era dedicada principalmente a minha mulher e aos meus filhos. 0 meu grande proveito e gozo era vê-los caçar.
Saíamos de manhã muito cedo e percorríamos as zonas de chanato e as florestas, nos rastos da caça que seleccionávamos. Voltávamos ao acampamento pelo meio-dia e saíamos novamente à tardinha, quando os animais deixam as matas fechadas, onde se abrigam do calor.
À noite, depois de jantar, com boas canjas de galinha-do-mato, de perdiz ou de pombos verdes e de óptima carne de caça estufada, ou bifes de impala ou búfalo, aquecíamo-nos na fogueira à luz do petromax. Conversávamos e ríamo-nos com os nossos companheiros e amigos negros, pisteiros e carregadores, numa comunhão verdadeira de criaturas simples, sem reservas nem paternalismos.
As noites frias eram passadas na nossa velha tenda, testemunha de muitas aventuras, onde dormíamos os quatro, juntos e aconchegados para manter o calor.
A humidade da noite era em parte afastada pelo calor da fogueira, onde os troncos secos das micaias se transformavam em magníficos braseiros.
Pela calada da noite, a orquestra do silêncio entoava o seu concerto de ruídos tão nossos conhecidos e que nos permitiam fazer como que uma leitura do mundo selvagem que nos rodeava. 0 uivo das quizumbas (hienas) e as suas gargalhadas zombeteiras eram o prato forte da noite, porque elas eram atraídas pelo cheiro da carne e das peles dos animais abatidos. Por vezes chegavam tão perto que os homens, dormindo à roda da fogueira, lhes atiravam paus a arder para as espantar!
Quantas vezes os meus filhos e o Salvador — meu ajudante — projectavam o foco da lanterna para fazer brilhar os seus olhos gulosos no negrume da noite. As aves noctívagas, essas eternas criaturas que nunca se vêem mas sempre fazem ouvir os seus pios lamentosos, contracenavam com os rugidos dos leões que se faziam ouvir à distância.
Houve uma noite em que as girafas passaram tão perto que se assustaram com a presença do acampamento. 0 vento estava de feição e por isso não deram por nós até chegarem a uns vinte metros e foi quando nos fizeram acordar com o barulho dos potentes cascos a bater no chão pedregoso, numa corrida precipitada pelo mato fora.
E assim corriam os dias até que a selva implacável nos fez recordar, de maneira brutal, que aquele não era, há milénios, o nosso verdadeiro habitat e por isso não poderíamos infringir impunemente as suas leis.
Naquele dia seguimos o rasto de uma manada de búfalos e, a uns três quilómetros, o meu filho Zé Carlos abateu um belo exemplar. Carregámos o búfalo já esquartejado, no atrelado do "Land-Rover", que para esse fim um dos meus filhos foi buscar e guiou até ao local a corta-mato, e regressámos ao acampamento.
Depois do almoço, e enquanto os pisteiros tratavam de cortar a carne em tiras para ser salgada e seca, eu e a Maria Amélia fomos dormir uma boa sesta no sossego da nossa tenda. Entretanto, os meus filhos, pegando nas armas de calibre 22 foram a pé até à lagoa para caçarem alguns pombos verdes e rolas para fazer a canja do jantar.
Aí pelas três horas, o drama bateu-nos à porta e fez-nos passar os piores momentos das nossas vidas e que ainda hoje nos causam estremecimentos dolorosos.
0 meu filho mais velho — nove anos e meio — apareceu-nos no acampamento correndo esbaforidamente e gritando em pânico que o irmão tinha desaparecido havia algum tempo e não respondia aos chamamentos que aflitivamente fizera nos arredores da lagoa!
Não tenho palavras capazes de descrever o susto e a angústia que se apoderaram de nós.
Eu fui e sou um homem um pouco temperamental e facilmente emocionável, mas o longo treino da caça desenvolveu em mim uma frieza e um calculismo perante os maiores perigos que chegam a atemorizar-me. Mas naquele dia e naquele momento desapareceu de mim o homem e o caçador para só ficar o pai extremoso, fraco e piegas.
Como louco e desaustinadamente percorri com o Land-Rover as poucas picadas e o mato à volta do acampamento, buzinando e chamando sem cessar, num frenesim insano e sem qualquer resultado.
0 pânico apoderou-se completamente de nós. A minha mulher era a efígie da ansiedade e da dor e queria partir pelo mato fora em busca do filho, mas isso nada resolveria e perder-se-ia também.
Numa segunda análise chegámos à conclusão de que o João tinha desaparecido havia quase duas horas e, neste momento, saltavam à nossa mente todos os cenários possíveis naquele deserto que só agora olhávamos como se fosse um inferno e não o lugar aprazível de que tanto gostávamos.
Cobras venenosas, leões, leopardos, búfalos, elefantes, perigos sem conta, passavam pelo pensamento como coisas definitivas a justificar o desaparecimento do nosso filho!
Entretanto, os minutos passavam céleres, a tarde caía rapidamente e a noite aproximava-se. Não teríamos mais do que uma hora de luz. A confusão instalava-se.
Fiz mais uma tentativa desesperada, percorrendo os arredores com o carro, a corta-mato, furando e passando por cima de tudo e buzinando insistentemente, sem que um único sinal viesse pôr cobro ao nosso tormento.
Era preciso fazer mais alguma coisa e tive de apelar para todas as forças e sangue-frio de que era capaz, porque o sol já havia partido e a noite não tardava. Se não o encontrássemos agora, seria o fim da esperança. 0 caçador tinha de prevalecer, mas fiquei a saber que não era fácil!
Organizei então mais uma batida à volta do acampamento. Os meus pisteiros e carregadores, homens habituados ao mato, foram instruídos a avançar pelo mato em formação radial, seguindo sempre e cada um a mesma direcção, ao mesmo tempo que chamavam com quantos pulmões tinham.
Eu manter-me-ia no acampamento como pivot, disparando as armas para o ar com intervalos certos e em diversas direcções para os manter ligados ao centro da operação. Coloquei o petromax o mais alto possível numa árvore e o Zé Carlos alimentava a fogueira com bastante lenha, para servirem de ponto de referência quando a noite caísse. Era a única solução e a esperança começava a esvair-se.
À medida que as suas vozes se afastavam até se perderem ao longe e a escuridão caía sobre nós, a ansiedade aumentava até ao limite das nossas forças e a Maria Amélia e o Zé Carlos eram a própria imagem da tragédia.
0 João Filipe não passava de uma criança e para todos nós era extremamente penoso pensar como ele devia sofrer naquele momento, se é que ainda estava vivo!
Mas, e para mim mais uma vez, a selva era generosa na sua punição. Talvez ela soubesse como a amávamos...
Quando a noite já se instalara e as vozes dos homens se haviam diluído na distância, envolvendo-nos num silêncio mortal, sofremos um estremecimento ao ouvir o apito do combóio que se dirigia a grande velocidade para o Mapai.
0 vento vinha daquele lado e em breve o seu ruído, correndo nas calhas ao longe, chegava até nós. Tive então a esperança de que para o João, se estivesse vivo, seria um sinal de vida no vazio angustiante do mato. Mas foi pelo menos de bom agoiro, porque passados uns minutos um «toque-toque» longínquo e quase inaudível atravessou o silêncio que nos abafava e tocou-nos o coração.
0 nosso alvoroço foi indescritível, e foi confirmado algum tempo depois pelo agora claro "toque-toque" dum machado a bater num tronco de arvore seca, a grande distância, e seguido por um assobio longo e prolongado.
Era a aleluia, era a luz da esperança, era tudo o que há de bom no mundo, que começava a afastar de nós a mão da morte que nos engalfinhava a alma. Aquele era o sinal certo de que o nosso filho havia sido encontrado. Mas estaria vivo?!...
Lembro-me de que joguei fora, nem sei como nem para onde, a arma que vinha disparando para o ar e, pegando numa lanterna, desatei a correr pelo mato na direcção do assobio, num estado de alegria e dúvida indizíveis.
Corri cerca de um quilometro pelo mato espesso sempre na direcção dos assobios que se aproximavam cada vez mais e a certa altura senti falar no escuro, que agora era total, lá mais para a frente.
Por todo o meu ser perpassou um pensamento carregado de esperança: se alguém falava é porque havia um interlocutor e portanto... e neste momento a voz do meu filho encheu a noite — «Pai»!!! Ele tinha visto a luz da lanterna. Mais uns momentos e as nossas lágrimas misturaram-se...
Se foi em vão que tentei descrever com algum realismo a nossa grande aflição naquelas horas dramáticas, agora seria ainda mais improvável que conseguisse descrever a alegria e a exaltação de termos o nosso filho de volta.
E foi no meio dessa alegria e muitas lágrimas que transformaram o nosso acampamento num autêntico arraial de festa, e no qual os nossos amigos negros tomaram parte com inequívocas manifestações de apoio e ternura, que ficámos a saber da triste aventura do nosso caçador de pombos verdes.
E foi assim. Depois de ter abatido alguns pombos e rolas, afastou-se da lagoa na mira de caça melhor. 0 «demónio» ou o «Xicuembo» — como afirmavam os nossos homens — lançou-lhe então no caminho a tentação na forma de um porco-espinho, ao qual os negros atribuem conotações com os espíritos e que, evidentemente, se esquivou o melhor que podia às más intenções de tal caçador, fugindo sempre à perseguição algo inconsciente do João Filipe.
Sem tomar qualquer precaução e marcar o caminho de volta, perseguiu-o por umas largas centenas de metros até lhe acertar com uma bala na cabeça: — tarefa nada fácil — que o matou instantaneamente.
Apreciou o seu troféu, gozou a sua vitória e só depois verificou com preocupação que se afastara demasiado e tentou orientar-se para voltar. Mas o terreno era duro demais e não se viam as marcas das pegadas e o mato era todo igual. Além disso, dera inúmeras voltas na perseguição do porco-espinho e constatou com medo que estava irremediavelmente perdido e desorientado. . .
Contou-nos, com a voz embargada, que sentiu uma grande inquietação e medo e resolveu seguir na direcção que julgou mais provável.
Como o arrastar do porco lhe dificultava o andamento, depositou-o numa forquilha de uma pequena árvore, fora do alcance de pequenos animais, para ser recuperado mais tarde.
E assim andou à deriva por bastante tempo, cada vez mais assustado e, possivelmente, cada vez mais longe do caminho certo. E o tal "demónio" lá estava mais uma vez à espera dele, desta vez vestindo a pele de três quizumbas (hienas) deitadas e escondidas no meio de uns arbustos, certamente à espera da noite para se aproximarem do acampamento e apanharem algumas tripas ou restos de carne jogadas no mato. Quase chocou com elas! 0 susto foi tão grande e o seu aspecto e cheiro tão nauseabundos, que fugiu e correu nem ele sabia para onde e durante quanto tempo.
As quizumbas não tiveram melhor sorte e, assustadas, soltaram roncos e guinchos de medo e fugiram também pelo mato fora numa grande restolhada, capaz de assustar qualquer homem.
0 João não sabia quanto tempo correu nem a distância percorrida, mas teve a certeza, quando parou para tomar fôlego, de que se encontrava irremediavelmente perdido no meio da selva. Tentou então pensar no que devia fazer, mas a aflição era tão grande que só lhe apetecia chorar.
Andou quase uma hora à toa, tentando desenvolver uma espiral, como eu lhe havia ensinado, mas a mata adensava-se cada vez mais e a sua desorientação era cada vez maior.
Nunca ouviu os nossos chamamentos nem sequer os muitos tiros que disparei para o ar. E o que era mais grave, e lhe causou arrepios de medo e de frio, era não ter com ele o que sempre lhe recomendara: fósforos!
E entretanto o silêncio e a escuridão da noite começavam a envolvê-lo. Sentiu-se completamente indefeso e entregue à sua sorte. Sabia que nós tudo faríamos para o encontrar, mas temia que isso não fosse possível durante a noite que tinha pela frente.
Lembrou-se com terror das quizumbas que encontrara e dos leões que abundavam na região e decidiu escolher uma boa árvore que lhe desse guarida, e subiu para o ramo mais seguro e a boa altura, para passar a noite.
Lembrava-se também das histórias que eu lhes contava e amarrou uma das pernas a um ramo da árvore com o seu pequeno cinto, para não cair quando lhe desse o sono.
Ao fim de algum tempo, e talvez por se encontrar mais alto, começou a ouvir um ruído que vinha de longe e que acabou por identificar como sendo o combóio, quando este apitou. Sentiu-se mais confortado. Ele, de facto, já se encontrava mais próximo do caminho-de-ferro do que do nosso acampamento porque, na sua desorientação, acabara por seguir naquele sentido. Pensou então que se conseguisse aguentar-se até ao dia seguinte, dirigir-se-ia em sentido inverso para atingir o rio, porque aí encontraria povoações e gente amiga.
Não sabia dizer quanto tempo estivera naquela situação, mas sabia que sofrera muito frio e medo de morrer ali sozinho.
Podemos calcular os pavores que assaltaram a sua imaginação infantil no meio do mato indiferente e hostil que o rodeava em silêncio e cheio de fantasmas. Eu podia imaginar isso mesmo e doía-me muito porque já tivera ocasião de me perder e até de observar adultos entrarem em pânico em situações idênticas.
Mas o tal «demónio» achou que ele estava suficientemente castigado e fez-lhe chegar aos ouvidos uma espécie de musica celestial, era a voz do Magandane, um dos meus pisteiros, ainda abafada pela lonjura e logo de seguida de um assobio mais estridente. Desceu da árvore e correu nas asas do medo naquela direcção, gritando com quantas forças tinha, para ir cair, lavado em lágrimas, nos braços amigos do Magandane.
Entretanto, todo este drama, desde que ele se afastou da lagoa, tinha durado cerca de quatro horas e meia e deixou, nas nossas vidas para sempre, profundas marcas.
Mas não só. Deixou também um profundo sentimento de gratidão para com os nossos corajosos companheiros negros que, com a sua bondade e coragem tradicionais, tanto nos ajudaram nestes momentos difíceis! Todos eles regressaram ao acampamento, já noite escura, depois de terem ouvido o «toque-toque» do "telégrafo do mato»... 


A propósito de "toque-toque", cabe aqui explicar a sua função e os seus efeitos.
Os sons no mato repercutem-se de modo peculiar e diferentemente de outros ambientes. Os negros sabem isso, evidentemente, e usam processos eficazes de se fazerem ouvir a grandes distâncias.
Usam muito o assobio, de que são especialistas e que soltam com uma frequência elevada. Aquele som a que me refiro é um dos sinais característicos usados na selva. Escolhem uma árvore ressequida, quase sempre de madeiras muito densas, duras e ocas e com as costas dum machado, a sua ferramenta tradicional, batem com força e espaçadamente. O som propaga-se radialmente e com elevadas vibrações pela imensidão do mato, atingindo quilómetros de distância.
Pelas mesmas razões, o som provocado pelo tiro de bala ou mesmo de caçadeira é muitíssimo menos eficaz e, se não tiver o vento a favor, morre a algumas centenas de metros. É muito rápido e não provoca vibrações e por isso mesmo é mais absorvido pela vegetação.
Mas se uma bala for disparada na direcção pretendida e quase na horizontal, poder-se-á ouvir a «chicotada» dessa bala enquanto ela viajar a velocidades supersónicas. Esta foi uma das razões pelas quais o meu filho não ouviu os tiros de aviso que disparei no acampamento e para o ar.


(Capítulo extraído da obra CAMBACO II - MEMÓRIAS DE UM CAÇADOR AFRICANO, de J.C.Pardal, sob autorização do mesmo; as fotos são do autor da obra; as ilustrações são de F. Charneca; arranjo gráfico de Luis Moutinho; edição da MERIBÉRICA - LIBER EDITORES, LDA, Maio de 1996)

Colori, colorado, está o conto acabado!

Esta magnífica obra pode ser pedida por email clicando em «ENCOMENDAR»


(O protagonista desta história real vive aqui em Santo André e é o pai de uma GRANDE amiga minha - Inês Gil)

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