| (versão
integral) |
A PULGA E O ELEFANTE
Era uma vez uma pulga que saltava e saltava e voltava a
saltar para ver mais alto, lá para o outro lado do mundo.
De tanto saltar, foi parar, sem querer, à cabeça de um elefante que por ali passava
calmamente com os seus amigos e família.
Quando se viu pousada na cabeça do elefante pensou:
- Agora já não tenho necessidade de andar para aqui aos saltos, saltinhos e saltões,
porque daqui de cima vejo tudo até ao longe, como se estivesse numa montanha.
Assim pensou, assim o fez. Chamou logo a sua famelga pulguenta e lá foram instalar-se no
"cucuruto" do paquiderme com grandes vivas de felicidade e alegria.
Ora o elefante senhorio começou a sentir uma coisa estranha no andar de cima. Uma
sensação incómoda de último andar ocupado por vizinhança desconhecida e em festa
agitada. Para escutar e sentir melhor, volta não volta parava, controlando as suas
enormes orelhas, e punha-se à escuta para captar o que se passava.
O pulguedo em festança lá estava, observando do alto a paisagem, tomando chá e
biscoitos de pulga, em festa de arromba, aliviados de tanto salto ter dado.
A pulga rainha, que lhes tinha indicado aquele miradouro, tinha um chapéu enorme,
espécie de corôa, para se distinguir das outras pulgas. Uma espécie de campeã dos
saltos. De repente, uma ventania muito forte veio sem avisar e o chapéu saltou-lhe da
cabeça real e foi voando, voando pelo ar fora, e só parou dentro do olho do elefante,
numa altura em que ele, muito paradinho, tentava, de olhos esbugalhados e muito
concentrado, perceber a origem e o porquê daquela algazarra. O nosso elefante, com o
chapéu enfiado no olho, deitava abundantes lágrimas, como aquela poeira que nos entra
pela vista sem avisar e nos deixa a chorar, como um rio deslizando pela cara abaixo.
Então a pulga do chapéu resolveu aventurar-se para recuperar a sua preciosidade
real.
Desceu até à grande orelha do elefante e segredou-lhe:
- Senhor elefante, senhor elefante, sou eu, a vizinha do andar de cima, está-me a ouvir?
Sim, como é que uns super ouvidos como aqueles, não haviam de ouvir? Aquele som, junto
aos tímpanos, parecia-se com o ressoar de trovões dentro de uma panela!
O elefante, com o olho a deitar lágrimas, eriçou a tromba e como uma trompete, lá
perguntou aflito:
- Quem é que está aí aos berros?
- Sou eu, a sua vizinha pulga. Posso ajudar a parar essa dor que o faz chorar!
-Como?- Perguntou o elefante a desfazer-se em água pela tromba abaixo.
- Posso ir aí ao lado e tirar esse mal do seu olho. Logo ficará melhor!
O elefante, que não sabia o que era uma pulga, ao princípio desconfiou se aquilo não
era a voz de algum fantasma, ou o truque do seu primo com a mania de ser ventríloquo. Mas
como a dor não saía, nem com a esfregadela da tromba, lá se resignou dizendo:
- Está bem ó Dona Pulga. Não sei se você existe, mas se existe ajude-me, pois parece
que me entrou um porco espinho para o olho.
- Não é um porco espinho. É o meu belo chapéu em forma de coroa que me voou da
cabeça.
Com um salto bem treinado, a pulga rainha chegou-se perto do olho do paciente e
zás, tirou-lhe o chapéu, o que provocou um alto som de alívio do elefante, agora
agradecido e olhando para a pulga com melhor visibilidade.
- Você é que é uma pulga? Que raio de bicharoco mais pequeno e saltitão! Bem, mas
muito obrigado por me ter aliviado desta dor de olho chorão. E já agora onde vive?
- Eu? Bem, se não ficar zangado comigo vou-lhe contar. Estava eu aos saltos no chão,
aqui perto, quando um salto mais campeão me levou ao cimo da sua linda, linda e espaçosa
cabecinha, ainda por cima com uns abaniques que dão fresquinho e lindos como asas ao
vento. Quando estava lá no seu alto, a vista era magnífica e, com um assobio especial de
pulga, convidei os meus amigos e famelga pulguenta a subirem, de salto ou pela tromba
acima, assim acontecendo. Foi a visão mais bonita que tivemos todos até agora, fartos de
andar sempre aos saltos de terra em terra, de cão em cão, de gato em gato. Como pode
sentir daqui, lá estão todos ainda numa grande festa, com uns senhores da montanha,
deliciados com a vista no horizonte.
O elefante, ainda com um olhar espantado, ia ouvindo a história daquele bichinho
chamado pulga e quase não acreditava na ocupação do seu espaço superior entre as
orelhas. Mas como tinha uma dívida de gratidão pelo alívio da vista, lá compreendeu,
decidindo apresentar a pulga à sua família maravilhosa e restantes amigos da manada,
sempre unida, com boa memória, como todos os elefantes, grandes de corpo e dóceis de
coração.
A pulga, por sua vez, prometeu apresentar todo o seu povo pulguento e, com aquele assobio
especial, chamou a sua gente, formando-se logo uma grande fila, numa confraternização
com os paquidermes, trocando amizades e experiências de saltos e jactos de água saídos
das trombas, entre risos e conversas de animais pequenos e animais enormes.
Enfim, o tamanho não tem grande importância. Foi tudo uma questão do elefante saber da
existência da pulga, embora a pulga já conhecesse o elefante, e agora muito melhor,
depois daquele ponto alto.
E assim ficaram amigos. Os elefantes deram-lhes autorização para viverem no alto de toda
a manada.
Neste momento fazem festa todos as semanas. Convidam os elefantes para dançar. Ainda
tentaram que estes dessem alguns saltos, mas nada feito, pesadões como são! Dão grandes
passeios pelas florestas, sempre em festa e com belas paisagens, num nunca mais acabar.
Um dia ainda passam por aqui. Estejam atentos ao assobio especial da nossa amiga pulga,
rainha e campeã de saltos...!
Colori, colorado, está o conto acabado! |