(versão integral)


OS TRÊS CÃES ENCANTADOS

Noutros tempos, certo soldado espertalhão, quando se dirigia para a cidade, encontrou sentada, debaixo de uma árvore, uma velha muito feia e de avental à cinta, que lhe propôs:
- Pelo aspecto, pareces-me um soldado às direitas. Ora, se me quiseres prestar um favor, torno-te rico.
O soldado, arregalando os olhos, disse imediatamente que sim. E então a velha explicou-se deste modo:
- A árvore que me dá sombra é oca e, se trepares por ela, acharás um enorme buraco. Deixas-te escorregar pelas suas paredes e logo chegarás a um corredor, iluminado por cem lâmpadas, que vai dar a três portas. Abrindo a primeira, encontrarás, num quarto, uma grande caixa de cobre com um cão em cima, cujos olhos são tamanhos como pires de chávena. Se fizeres, porém, o mesmo à segunda e à terceira porta, verás, antes, ora uma caixa de prata e um cão de olhos como regueifas, ora uma caixa de oiro e um cão, senhor, de olhos iguais às rodas de um carro. Os três cães metem medo. Mas um soldado, como tu, decerto não sabe o que isso é, tanto mais que as caixas transbordam de belas moedas de cobre, prata e oiro, com que poderás encher à vontade os bolsos, e os cães, se os puseres em cima do meu aventalzinho, não fazem mal a uma mosca. Depois, quando tiveres feito a tua colheita de dinheiro, tu chamas e eu deito-te uma corda e iço-te.
- E que desejas tu em troca? - perguntou o soldado.
- Que me tragas de um dos quartos o isqueiro, que minha avó lá deixou, vai para cem anos.
- Está combinado.
O soldado desempenhou-se da tarefa com o avental e a velha cumpriu a sua promessa. Mas, logo que o mesmo saiu do buraco, com os bolsos cheios de moedas, ela pediu-lhe o isqueiro.
- E para que o queres?
- Isso é comigo - respondeu ela, muito lampeira.
O soldado, que já percebera que a velha não passava de uma bruxa, feriu lume no isqueiro e, no mesmo instante, surgiu o cão de olhos de pires de chávena.
- O patrãozinho que manda? - perguntou ele.
- Que comas a velha - ordenou o marau, que de sobra sabia quão malvadas e nocivas eram as bruxas.
E meu dito, meu feito, o cão comeu a bruxa, indagando em seguida:
- E agora o que deseja?
- Que me leves à cidade.
Enquanto o diabo esfrega um olho, o cão transportou o soldado à cidade, onde logo comprou bons fatos e se instalou na sua melhor estalagem. E o estalajadeiro, ao vê-lo tão papo-seco, não tardou a dizer-lhe que a princesa estava mesmo a calhar para sua noiva.
- E é linda a princesa?
- Ora essa, na beleza ninguém lhe chega aos calcanhares! O pior é que o rei, seu pai, porque certa vez uma cigana lhe asseverou que ela casaria com um simples soldado, a trancou no alto castelo de cobre.
Perante isto, ficou o soldado morto por conhecer a princesa e, assim, mal anoiteceu, feriu lume no isqueiro e, surgindo o cão de olhos de pires, ordenou-lhe:
- Corre ao castelo de cobre e traz-me a princesa.
- Senhor, o castelo fica demasiado longe para as minhas forças! Quem poderá desempenhar-se melhor da incumbência é o meu irmão dos olhos de regueifa. Chame o patrãozinho por ele, ferindo duas vezes lume no isqueiro.
O soldado seguiu o conselho e, dentro em pouco, o cão trazia-lhe a princesa.
Conversaram ambos toda a noite e, quando estava para amanhecer, o cão foi levar a princesa ao castelo. No dia imediato esta, ao tomar chá com o rei e a rainha, contou-lhe que tivera um sonho muito bonito, no qual entraram um cão de olhos de regueifa e um soldado, que havia conversado bastante consigo. O rei ficou com a pedra no sapato e, por isso, ordenou furioso à aia que a vigiasse. Chegou a noite e o cão voltou a buscar a princesa, mas a aia deitou a correr atrás dele, só parando quando este entrou na estalagem. Então a aia fez com um pedaço de giz uma cruz na porta, dizendo consigo:
- Desta forma, amanhã, sua majestade saberá onde mora o soldado.
Mas o cão, ao sair da estalagem, viu a cruz e, indo a todas as portas da cidade, traçou outras iguais, com o que, no dia seguinte, o rei ficou às aranhas.
- Não te aflijas, marido! - sossegou-o a rainha - pois eu prendo ao vestido da pequena uma saquita com trigo e faço-lhe um buraquinho. E, desta maneira, se tornarem a levá-la, os grãos de trigo irão caindo pelo caminho e ficaremos a saber onde é a casa do mariola.
De novo à noite o soldado feriu duas vezes lume no isqueiro. Mas, surgindo o cão de olhos de regueifa, o mesmo informou-o, pesaroso:
- Eu não corro tanto como o meu irmão dos olhos de rodas de carro, e a aia segue-me. Ele que faça pois o serviço, para o que basta o patrãozinho chamá-lo ferindo três vezes lume no isqueiro.
O soldado utilizou o dito cão. Apesar disso, os grãos de trigo denunciaram-lhe a morada e ele foi preso e condenado à morte pelo rei. Quando o carrasco se preparava para lhe cortar a cabeça, o sabidola pediu, contudo, que lhe fosse permitido, como última vontade, tirar duas fumaças do seu cachimbo. O rei não pôde recusar-lho. E ele, ferindo lume no isqueiro, fez com que aparecessem os seus três cães, que logo começaram a rosnar e a mostrar os dentes à assistência, que tremia como varas verdes.
- Ó rei, perdoa-me e deixa-me casar com a princesa, senão dou ordem aos cães que te comam, assim como aos cortesãos.
O rei não teve outro remédio senão aceder.
E o soldado casou com a princesa e foram ambos muito felizes.


Colori, colorado, está o conto acabado!


(Conto de Andersen)

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