(versão integral)


A PRINCESA QUE NÃO GOSTAVA DE SOPA

Num país muito distante, há muitos anos atrás, havia um rei e uma rainha que desejavam muito ter um filho. Um dia, a barriga da rainha ficou muito grande e, uns meses depois, nasceu uma menina. Os reis ficaram tão felizes por terem um bebé, que fizeram uma grande festa e convidaram as três fadas boas que eram a Clorofila, a Animália e a Pedrita.
Clorofila ofereceu uma flor lindíssima à princesinha e declarou:
- Esta flor nunca murchará. Também a beleza da princesa será cada vez maior, desde que a princesa coma sempre de tudo o que os agricultores cultivam: pão, sopa, arroz, batatas, saladas e fruta.
Seguiu-se Animália que ofereceu à princesa um leãozinho e declarou:
- Este leãozinho ficará cada vez mais forte. A princesa crescerá com ele em força e agilidade desde que coma sempre da carne e do leite dos animais que os pastores e as pessoas das quintas criam e dos peixes que os pescadores tiram do mar.
Finalmente, foi a vez de Pedrita que ofereceu um diamante e disse:
- Tal como ninguém consegue riscar este diamante, também ninguém conseguirá ferir a princesa, desde que ela nunca o perca.
O rei, encantado com as qualidades dadas à princesa, baptizou-a de Florbela.
Contudo, havia na floresta um duende muito vaidoso e mau e que ninguém convidava nunca para nenhuma festa. Chamava-se Bactério e divertia-se a estragar tudo o que as fadas boas faziam. Quando a menina fez três anos, Bactério resolveu fazer-lhe uma visita. Apareceu no quarto da menina e perguntou-lhe:
- Olá Florbela! O que queres que eu te dê de presente pelos teus anos?
Florbela ficou surpreendida porque nunca tinha visto nenhum duende e, como ele parecia simpático, pediu:
- Dá-me um urso de peluche.
Imediatamente, Bactério fez aparecer um lindo urso de peluche. Enquanto a menina brincava com o ursinho, Bactério subiu ao armário do quarto e roubou o diamante de Florbela. A seguir, num instante, desapareceu.
O ursinho era tão engraçado que a princesa andava sempre com ele. Mesmo à mesa, lá estava o ursinho ao pé dela. A mãe, quando o viu pela primeira vez, perguntou:
- Florzinha, onde é que encontraste esse urso?
- Se calhar é lá da escola - disse o rei enquanto fazia os seus flocos.
- Não, foi um homenzinho que me deu - explicou Florbela.
- Um homenzinho? - perguntaram o rei e a rainha ao mesmo tempo, mas encolheram logo os ombros, pois Florbela inventava muitas histórias.
- Se for de algum amigo dela, logo saberemos - disse a rainha.
Florbela era muito preguiçosa para comer. A mãe dizia-lhe sempre que as três boas fadas explicaram que ela tinha de comer de tudo para ser bela, forte e resistente. Um dia, a mãe estava a arrumar umas coisas e Florbela estava à mesa a comer a sopa. A princesinha não tinha vontade nenhuma de comer. De repente o urso levantou-se do lugar e pediu:
- Tenho fome, dá-me a tua sopa, Florbela.
Florbela pôs-lhe o prato de sopa à frente e o ursinho comeu-a num instante. Quando a mãe entrou na cozinha, o ursinho ficou muito quietinho no seu lugar. A mãe viu o prato de sopa vazio e ficou muito contente:
- Assim é que é. Linda menina! Comeu a sopa toda.
Quando o rei chegou, a rainha deu-lhe a novidade. Ele ofereceu uma "tablette" de chocolate de presente a Florbela. A todas as refeições, o urso de peluche comia a comida da princesa enquanto o rei e a rainha não estavam a olhar. Como não comia, Florbela ficou muito fraquinha e a sua beleza apagou-se.
- Não sei o que se passa com a nossa menina. Ela come tudo e está tão fraquinha. - lamentava-se a rainha.
- Vê lá se ela não comeu nada que lhe fez mal - comentou o rei.
Um dia, a mãe reparou que o ursinho estava cada vez maior. Achou muito estranho.
- Florbela onde está o teu ursinho?
- Está aqui, mãe!
Mas ele não era tão grande... Florbela já estava tão fraquinha, que ficava sempre deitada na cama. Já não tinha força nem para correr, nem para saltar, nem para brincar. A mãe já só lhe dava biberões cheios de leite. Ela já não tinha força para mastigar o pão, a fruta e a carne. O rei e a rainha andavam muito tristes. A rainha chorava tanto que por toda a casa havia lágrimas dela, no chão, sobre as mesas e sobre as cadeiras.
- A minha Florbela está tão doente! lamentava-se a rainha. A rainha reparou que também a flor que Clorofila oferecera estava murcha. O leão, esse, estava esquelético e também não tinha vontade de comer. A rainha sabia que alguma coisa de estranho se passava, mas não sabia o que era. Um dia, Florbela decidiu que ia voltar a comer e disse à mãe:
- Tira-me daqui este urso. O urso de peluche já era muito grande e ficava normalmente num canto do quarto. A rainha pegou nele e levou-o para a sala. Então, disse:
- Mas que pesado que está este boneco! Se ao menos Florbela engordasse como ele.
A mãe deixou então o biberão de leite na cama de Florbela e foi para a cozinha. Quando a mãe não estava a olhar, o urso correu para o quarto de Florbela e ordenou-lhe:
- Dá-me esse leite! - e arrancou-lhe o biberão das mãos.
Florbela começou a chorar. A mãe foi a correr, chegou ao quarto e viu o urso de peluche no canto com o biberão vazio ao pé.
- Como é que este urso veio aqui parar?! Eu tinha-o deixado na sala.
- Ele tirou-me o leite! - queixou-se a princesa.
- O urso de peluche? A rainha achou tudo muito esquisito. Daí em diante, ela ficava sempre ao pé de Florbela, enquanto ela comia. Florbela começou a comer de novo e já estava muito melhor. Um dia, disse à mãe:
- Eu posso comer sozinha aqui, mas tens que levar o urso para a floresta para ao pé do homenzinho que mo deu.
A rainha vestiu a armadura, cingiu a espada, pegou na lança, prendeu o urso ao cavalo e montou. Foi para a floresta. Quando lá chegou, encontrou a fada Clorofila e contou-lhe a história. Ela disse logo:
- Isso são coisas de Bactério. Se a princesa ficou doente, é porque ele lhe tirou o diamante. Tens de ir buscá-lo, senão a princesa não crescerá.
A rainha andou por toda a floresta à procura do duende. Finalmente, ao passar perto de uma caverna, viu um anãozinho feio, de orelhas ponteagudas, a correr. Numa das mãos do duende, lá estava o diamante de Florbela. A rainha saltou do cavalo para cima dele, agarrou-lhe a mão e tirou-lhe o anel.
Assim que a rainha lhe tirou o diamante, o urso de peluche transformou-se num urso de verdade e começou a rugir contra o anão. Este fugiu aterrorizado. E nunca mais ninguém  viu ou ouviu falar do malvado duende Bactério.


A rainha voltou para casa e guardou o diamante. A flor voltou a vicejar e a ganhar cor. O leão tornou-se de novo brincalhão e comilão. Daí em diante, Florbela nunca mais deixou nem uma só colher de sopa no prato. Ela cresceu e tornou-se numa das princesas mais lindas do mundo.
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Colori, colorado, está o conto acabado!


(Esta história foi escrita para a sua filha por Luis Filipe Redes P. Ramos, estudioso e professor de literatura para a infância, a quem agradecemos a autorização para a sua publicação neste site) 

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